Ilha de Paquetá, um paraíso escondido no Rio de Janeiro

Cenário de filmes e novelas, ruas tranquilas de paralelepípedos, centenárias casinhas coloridas, refúgio de Dom João VI e José Bonifácio e muitas, muitas bicicletas por todo o lado. Essa é Paquetá, uma pequena ilha de apenas 1,2 km quadrados de área em formato que lembra um oito, divididos entre morros, áreas de mata Atlântica e inúmeras praias no coração da Baía de Guanabara.

Com cerca de 4 mil habitantes, Paquetá tem um clima tão bucólico que muitas vezes você se pergunta se realmente está em um bairro do Rio de Janeiro. Aliás, esse é um dos bairros mais seguros da cidade e andar por suas ruas até tarde da noite não é um problema, já que os próprios moradores dizem que “se acontecer alguma coisa, não tem para onde fugir” hehe.

Brincadeiras a parte, um passeio pela ilha é uma volta ao passado e um dos lugares mais legais para se conhecer na cidade maravilhosa.

Clima de interior

  • Onde fica

Paquetá é um arquipélago formado por mais de 10 ilhas e que fica localizado na parte nordeste da Baía de Guanabara, próximo da reserva ecológica de Guapimirim. As ilhas do arquipélago são:

Ilha de Paquetá, Ilha do Braço Forte, Ilha de Brocoió (funciona como residência de verão do Governo do Estado do Rio), Ilha Casa da Pedra, Ilha Comprida, Ilha dos Ferros, Ilha das Folhas, Ilha Jurubaíbas, Ilha dos Lobos, Ilha de Manguinho, Ilha de Pancaraíba, Ilha da Pita, Ilha Redonda, Ilha de Itapacis e a Ilha de Tapuamas (também conhecida como Ilha do Sol).

A ilha de Paquetá é a maior e mais importante delas, sendo que em língua tupi, seu nome signifique “muitas pacas”.

  • Como chegar

A melhor forma de chegar até a Ilha de Paquetá é utilizando as barcas administradas pela CCR e que saem diariamente da Praça XV, no centro do Rio – para chegar lá, você pode ir de carro (há estacionamentos particulares na região), ir de Uber ou utilizar o metrô (a estação Carioca fica há cerca de 10 minutos caminhando).

O ticket para as barcas pode ser comprado nas bilheterias que ficam localizadas nos fundos da Praça XV e bem ao lado é feito o embarque – há uma sala de espera lá também. O valor do bilhete é de R$6,90 (2021), também sendo possível comprar o bilhete com integração com o metrô, ônibus, trem ou VLT. A viagem dura cerca de 60 minutos. 

Valores da barca. Fonte: site da CCR Barcas
Horários de saída da barca. Fonte: site da CCR Barcas

Confira os horários atualizados da barca no site oficial da CCR.

As barcas são modernas, espaçosas, climatizadas e contam com banheiros, assentos estofados e vários ambulantes que vendem produtos diversos. Para quem quiser curtir a bela vista ao longo do trajeto, no qual é possível avistar o centro do Rio, a Ponte Rio-Niterói e várias ilhotas da baía, se prepare, pois venta bastante hehe.

Barca
Interior
Estação das barcas em Paquetá
  • História

Logo no inicio da colonização europeia, por volta de 1555, a Ilha de Paquetá já foi palco de um grande conflito envolvendo os índios tamoios, que habitavam a região e declararam apoio aos colonizadores franceses e os índios temiminós, que declararam apoio aos portugueses.

No final, os portugueses saíram vitoriosos e a ilha passou a ser administrada por dois capitães portugueses: Inácio de Bulhões, que ficou com a parte norte e Fernão Valdez, com a parte sul. E essa divisão influenciou o desenvolvimento de Paquetá, pois o sul sempre se destacou mais do que o norte, abrigando desde então importantes fazendas e uma grande produção agrícola.

Entre 1769 e 1771, a Ilha deixou de fazer parte da Freguesia de Magé, algo que precisou ser descartado após inúmeros protestos e discussões da população. Uma dessas discussões, curiosamente, envolveu a escolha da matriz de Paquetá, pois já haviam duas igrejas construídas no local e ninguém sabia qual poderia ser a escolhida.

Mas em 1833, através de um decreto regencial, a Ilha de Paquetá passou a fazer parte do Município do Rio de Janeiro, sede da corte. Aliás, Paquetá se tornou um dos lugares queridinhos da família real, em especial de Dom João VI, e muito graças ao sucesso do romance “A Moreninha“. Também nessa época, a ilha começou a se tornar um importante ponto turístico, não apenas dos integrantes da corte, mas também de romeiros atraídos pelas festividades de São Roque, padroeiro de Paquetá.

Várias décadas depois, em 1903, Paquetá se uniu a Ilha do Governador para formar o Distrito das Ilhas até 1961, quando o então Estado da Guanabara criou o Distrito de Paquetá. Finalmente em 1975, a ilha passou a ser um bairro da cidade do Rio de Janeiro, mas preservando boa parte de sua história e tradições.

Arquitetura típica da ilha
  • Mas quem é essa tal de Moreninha?

Ao turistar pela ilha, você vai notar que A Moreninha é um nome muito presente em todo o lugar: praia, chácara, casa e até uma pedra levam esse nome. Pois bem, A Moreninha é um romance do escritor fluminense Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), no qual acredita-se que boa parte da história se passa em Paquetá. Eu digo acredita-se porque não há menção alguma à ilha em suas páginas e até hoje há um grande debate se o romance entre Augusto e Carolina realmente existiu e se Paquetá realmente é o cenário para a história.

Publicado em 1844, rapidamente o romance se tornou um sucesso, principalmente na nobreza da época, e trouxe muita fama para Manuel de Macedo (tanto que ele resolveu largar a medicina para se dedicar apenas a literatura). Inclusive, esse é considerado o primeiro romance nacional, justamente por descrever a rotina da sociedade burguesa carioca da época, um marco na literatura.

O livre teve duas adaptações para o cinema: 1915 e 1970 e duas adaptações para a TV, em forma de telenovela: 1965 e 1975, onde Paquetá serviu como cenário para as gravações.

Além disso, um parque temático construído na década de 1940 na região do Morro de São Roque e chamado de Chácara A Moreninha ajudou a popularizar o nome. Apesar de ter durado poucos anos, o espaço é até hoje lembrado pelos habitantes.

  • O que ver e fazer em Paquetá: o meu roteiro para um 1 dia na ilha

Eu passei apenas um dia em Paquetá, a partir de um bate e volta do Rio e justamente por não ser tão grande, consegui visitar todas as atrações da ilha e curtir com calma algumas praias. Mas claro, se você conseguir, pernoite na ilha pelo menos uma vez, para apreciar a vida noturna.

Eu fiz o meu passeio durante a semana, uma quinta-feira para ser mais preciso, e o clima estava tranquilo, mesmo havendo uma quantidade razoável de turistas.

Como o transito de veículos motorizados é proibido na ilha, recomendo a você fazer esse roteiro a pé – a ilha não é grande, então você não ficará cansado. Mas também é possível alugar bicicletas, charretes e triciclos para circular por Paquetá durante certo período – há várias agências espalhadas pela ilha.

Uma das maneiras de se locomover pela ilha
  • Praça Pintor Pedro Bruno

Porta de entrada para quem chega à ilha, já que a Estação das Balsas fica bem em frente, essa pequena e arborizada praça tem uma famosa feira de artesanatos e produtos típicos e está sempre movimentada. O projeto paisagístico da praça foi feito pelo próprio Pedro Bruno, que projetou o bebedouro, os bancos e colunas.

  • Casa do Pintor Pedro Bruno

Pedro Paulo Bruno (1888-1949) foi um dos mais importantes artistas cariocas da história. Nascido em Paquetá, ele foi pintor, cantor, poeta e paisagista, sendo que sua obra mais conhecida é a tela “A Pátria”, de 1909, localizada no Museu da República. Anos depois de sua morte, a sua casa na ilha foi transformada em um centro cultural a fim de preservar sua memória.

  • Igreja do Senhor Bom Jesus do Monte

A linda igreja matriz da paróquia de Paquetá foi primeiramente construída em 1763, mas a atual estrutura data de 1900. Está aberta ao público das 7h às 17h, de segunda à domingo.

A igreja dominando o horizonte
  • Praça do Senhor Bom Jesus do Monte

A praça da matriz é bem arborizada e conhecida principalmente pela grande quantidade de garças brancas que lotam o local: há mais garças do que pessoas ali hehe. Isso se deve porque na praça funciona o tradicional Mercado de Peixes e muitas sobras acabam virando aperitivos para as aves.

Nesta praça foi realizada, em 12 de setembro de 1904, a 1ª Festa da Árvore do Brasil.

  • Caramanchão dos Tamoios

Projetado por Pedro Bruno, o caramanchão é um importante espaço cívico e para apresentações.

  • Monumento à Tamoio

Foi inaugurado em 2010 pela Academia de Artes, Ciencias e Letras da Ilha de Paquetá, a partir de ações de seus patronos. Presta homenagem aos índios Tamoyos, que ocupavam toda a região da Baía de Guanabara antes da colonização.

  • Canhão de Saudação a D. João VI

Agora mais uma das história da ilha. A partir de 1808, D. João VI passou a frequentar Paquetá, a chamando carinhosamente de Ilha dos Amores, e toda a vez ele era recepcionado com tiros de canhão a partir de uma bateria localizada as margens da praia, do qual apenas um deles permaneceu e virou ponto turístico.

  • Baobá Maria Gorda

E quem diria que uma árvore se tornaria uma das principais de Paquetá hein!? Pois é, o baobá, que é uma árvore típica da África e que foi plantado aqui em 1627, tem atualmente mais de 10 metros de circunferência e é carinhosamente chamado de Maria Gorda.

Segundo a lenda local, quem fizer carinho em seu tronco e árvore será recompensado com sorte para o resto da vida. Verdade ou não, eu fiz o meu gesto de carinho hehe. Inclusive, na frente da árvore há uma placa escrito: “Sorte eterna a quem me beija e respeita, mas sete anos de atraso a cada maldade a mim feita”.

  • Parque dos Tamoios

Localizado no final da praia de mesmo nome, esse arborizado parque tem jardins, bancos para descanso e um monumento em homenagem a Carlos Gomes, que costumava frequentar saraus na ilha.

  • Praça de São Roque

São Roque é o Padroeiro da Ilha de Paquetá e é nessa praça que ocorre todos os anos a Festa de São Roque, tradicional evento de mais de 300 anos. Ao redor da praça ficam a Escola Pedro Bruno, de estilo neoclássico; a Chácara da Moreninha e o Poço de São Roque, no qual acredita-se que Dom João VI tenha se curado de sua úlcera na perna através dessas águas milagrosas.

  • Capela de São Roque

A capela dedicada ao padroeiro de Paquetá foi construída em 1698 e é a mais bela construção religiosa da ilha, na minha opinião. Em seu interior há uma obra de Pedro Bruno no altar.

Curioso é que no século XIX, durante a Revolta da Armada, o interior da capela serviu como necrotério.

  • Casa de Artes Paquetá

Fundada em 1999, a Casa de Artes Paquetá tem como objetivo valorizar e respeitar a identidade cultural, histórica e arquitetônica da ilha e sua comunidade através de atividades e exposições.

O espaço cultural fica instalado em um sobrado do século XIX.

  • Pedra da Moreninha

A grande pedra localizada aos fundos da Praia da Moreninha se tornou um dos mirantes mais populares de Paquetá, justamente por oferecer uma linda vista da Guanabara e da Ilha de Brocoió, localizada em frente.

Ilha de Brocoió ao fundo
  • Antiga Casa De José Bonifácio

Conforme mencionei no item anterior, José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, morou na Ilha de Paquetá entre 1830 e 1838, ano de sua morte e a sua antiga casa se tornou o Museu de Comunicação e Costumes José Bonifácio, de propriedade privada. A construção é tombada desde 1938 pelo IPHAN como patrimônio nacional.

A visitação é feita com agendamento prévio.

  • Parque Darke de Mattos

O principal parque público de Paquetá é arborizado, tem jardins, trilhas, playground, monumentos e mirantes, sendo um dos lugares que mais gostei de visitar na ilha. No Morro da Cruz, que se localiza dentro do parque, há um mirante sobre as pedras e que oferecem uma vista linda do litoral da ilha e também da baía.

A vista de um dos mirantes
  • Casa A Moreninha

O romance “A Moreninha” rendeu várias adaptações para a TV e para o cinema, como é o caso dos filmes de 1915 e 170 e das telenovelas de 1965 e 1975. E na última versão de 1975, uma antiga residência particular do século XIX serviu como cenário para algumas cenas.

Localizada na Praia Grossa, bem próxima da Estação das Barcas, a casa chama a atenção por sua arquitetura, mas principalmente por sua cor rosa.

Fonte da imagem: https://ilhadepaqueta.com.br/
  • As praias de Paquetá

A Ilha de Paquetá tem 12 praias e por se localizar na Baía de Guanabara, que infelizmente tem águas extremamente poluídas, você deve estar se perguntando se é possível nadar por ali ou não. E por incrível que pareça, duas de suas principais praias são exceção e continuam próprias para banho: são as praias José Bonifácio e da Moreninha.

Uma depressão localizada no fundo da baía faz com que água limpa chegue a essas duas praias durante as marés, algo que não acontece em outras localidades da região. Independente disso, mesmo que você não possa entrar nas águas, a paisagem das praias da ilha são muito bonitas.

Aliás, as praias de Paquetá são tombadas pelo IPHAN como patrimônio nacional desde 1938.

Algumas praias que visitei e indico:

  • Praia dos Tamoios

A mais central das praias de Paquetá, ela oferece boas vistas da baía e tem clima tranquilo, apesar de não ser recomendada para banhos. Não há infraestrutura ao redor e a faixa de areia é estreita.

  • Praia José Bonifácio

Essa é a praia mais famosa e visitada da Ilha de Paquetá e presta homenagem ao Patriarca da Independência do Brasil, que tinha uma casa em frente a essa praia. Com a melhor estrutura turística da ilha, a praia tem várias lanchonetes, bares, quiosques e hotéis ao redor, assim como é possível fazer passeios de caiaque e pedalinhos.

Além do nome oficial, o local também é conhecido como Praia da Guarda, pois ali existia uma guarita que protegia a cada de José Bonifácio.

  • Praia de São Roque

Outra tranquila praia da ilha, ela é conhecida principalmente pelos barcos de pescadores que ficam na orla.

  • Praia da Moreninha

A Praia da Moreninha é a que tem a maior extensão de faixa de areia de Paquetá, além de ser uma das mais populares entre os turistas, justamente pelo romance de Manuel de Macedo. E apesar de não parecer, a praia é artificial e surgiu a partir de um aterro na década de 1970.

Uffa, apesar de pequena, a Ilha de Paquetá tem bastante coisa para fazer, não é mesmo?! 😍😍😍

  • Se localize:

 

Fontes:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_de_Paquet%C3%A1
  2. https://ilhadepaqueta.com.br/
  3. http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/a-moreninha.html

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