Uros: as curiosas ilhas flutuantes do Lago Titicaca

Imagine uma comunidade pré-colombiana, de tradições milenares, vivendo em ilhas artificiais feitas de palha e que flutuam sobre as águas do Titicaca, o maior e mais alto lago navegável do mundo. Essa é Uros, uma das mais curiosas e visitadas atrações da região de Puno, sul do Peru.

  • A história

Os Uros são descendentes dos primeiros povos a habitar essa região. Passaram pela ascensão dos Incas e a chegada dos espanhóis conservando a peculiar vida sobre as águas. Originalmente eles falavam uma língua própria chamada puquina, mas hoje usam o aymara como língua oficial. A maioria, no entanto, também fala ou pelo menos entende espanhol.

Existem muitas versões e lendas de como surgiu a ideia de morar em ilhas flutuantes, sendo que a mais aceita é a estratégia de defesa: se o inimigo chegasse, bastava flutuar com a ilha o mais longe possível. Porém, se a ilha não fosse ancorada, era comum dormir em um lugar e acordar em outro – até mesmo em outro país, já que o Titicaca fica na divisa com a Bolívia.

Há cerca de 30 anos atrás, pouquíssimas ilhas estavam ancoradas próximas a Puno. Todas as outras estavam espalhadas pelo lago. Porém, com a chegada do turismo em massa, as outras ilhas foram sendo movidas para cá até formarem um conjunto com cerca de 30 ilhas e que são visitadas em dias alternados. Essas ilhas ficam próximas uma das outras e todas elas apresentam aspectos em comum: pequenos cômodos com o básico para poder cozinhar, lavar dormir e trabalhar.

Mais de 1.500 pessoas moram atualmente nelas, sendo que cada ilha é administrada por uma família e a comunidade por um patriarca.

Há pequenas creches e escolas infantis nas ilhas. Porém, assim que entram no ensino fundamental, médio e superior, as crianças e jovens vão estudar em escolas de Puno. A ligação entre a terra firme e as ilhas é feita em barcos motorizados, sendo que os tradicionais barcos de palha são quase que exclusivamente usados para os turistas.

Olha eu em frente a um dos barcos de palha utilizados pela comunidade
  • O passeio

Em Puno, muitas agências oferecem o passeio até as ilhas flutuantes, então, não é necessário reservar com antecedência, no dia anterior é suficiente. Essas agências ficam localizadas principalmente na Jirón Lima, principal rua comercial da cidade. Os pacotes mais vendidos e populares incluem visitas à Uros e a outras ilhas do Lago Titicaca, como Taquile e Amantaní.

O passeio também pode ser fechado no próprio hotel, como eu fiz. Escolhi o tour para Uros e Taquile (vou deixar para contar sobre Taquile em outro post). Não me lembro bem, mas acredito que paguei uns 60 soles nesse passeio, incluindo a van até o píer, transporte de lancha entre as ilhas e almoço. Uma opção mais barata é ir até o próprio píer de Puno e negociar lá mesmo.

Para quem não tem interesse ou tempo para conhecer outras ilhas, existe o passeio de meio dia que incluí apenas Uros, que sai normalmente às 9h ou às 16h30h.

Píer de Puno

Com o passeio fechado, no dia seguinte acordei cedo, tomei café da manhã e por volta das 8h a van passou no hotel para me levar até o píer de Puno, de onde partem as lanchas turísticas do passeio. Haviam argentinos, chilenos, colombianos e até uma italiana em nosso barco 😃.

Em seguida, fomos apresentados ao nosso guia bilíngue (inglês e espanhol). Não lembro seu nome, mas ele foi super simpático e nos contava inúmeras histórias da região. Também teve algumas apresentações de música folclórica.

Porto de Puno, de onde partem os barcos para Uros.
Dentro da lancha

Ao longo do trajeto é possível ir admirando as belezas naturais da região. A lancha era confortável, segura e tinha banheiro (bem diferente dos barcos que usei na Bolívia).

Esse é o modelo de lancha que nos levou até Uros

Em menos de 20 minutos chegamos em Uros. Assim que descemos da lancha, um dos moradores locais nos conta como é a construção e preservação de cada ilha, demonstrando como a palha de totora é entrelaçada e prensada para constituir uma ilhota. As mesmas são amarradas no fundo do lago, afim de evitar seu deslocamento com o movimento das águas. Essa palha é retirada de plantas aquáticas facilmente encontradas na região.

Ele também nos conta que ainda é comum a realização de oferendas à Cota Mama, a deusa da água, assim como o uso de coloridos trajes típicos, muitos deles com adereços que indicam seu estado civil.

Guia local

Peixes, base da alimentação dos Uros

Depois da apresentação, somos divididos em dois grupos para fazer um lento passeio ao redor da ilha a bordo de um barco típico também feito de palha.

Barco típico feito de palha
Dentro do barco

Ao final, somos levados até uma mesa com vários artesanatos – a venda desses produtos é uma de suas principais rendas. E isso é frisado várias vezes pelo guia, no que me pareceu, uma tentativa de nos forçar a comprá-los. Apesar de bonitos e bem feitos, os artigos tinham preços altíssimos, o que atiçou ainda mais a minha desconfiança. Acabei comprando um vasinho de 5 cm por 10 soles.

Depois das compras, voltamos para a lancha e seguimos viagem até a Ilha Taquile. Ao todo, a parada em Uros durou cerca de 1.30h.

  • Vale a pena?

Por ser uma das atrações mais famosas da região, fiquei com uma leve impressão de que as ilhas se transformaram em um fisga turista, o que tirou parte de sua originalidade. Inclusive, muita gente torce o nariz e questiona até que ponto tudo que nos é apresentado é verdade ou não. Mesmo assim, não é todo dia que temos a oportunidade de pisar em ilhas flutuantes e é super interessante ver como as mesmas são construídas e mantidas. Também são poucos os Uros que ainda continuam morando ali, já que as novas gerações estão preferindo as comodidades da terra firma. Ou seja, pode ser que em pouco tempo as ilhas flutuantes não existam mais.

Então sim, o passeio vale muito a pena, ainda mais se combinado com alguma outra ilha do lago.

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